1. Os Mbya Guarani no Território Gaúcho: Tekoa e Cultura Viva
O Rio Grande do Sul abriga diversas comunidades Mbya Guarani, pertencentes ao tronco linguístico Tupi-Guarani. Essas comunidades organizam-se em tekoa (aldeias), espaços físicos e cosmológicos onde a vida coletiva, a agricultura de subsistência e as práticas espirituais se entrelaçam. A Tekoa Guaviraty Porã, aldeia que protagonizou episódios do Projeto Gema, é um exemplo dessa presença viva e ativa no estado. A luta pela demarcação de terras e pela preservação do ambiente natural é uma constante, pois a saúde da floresta (ka'a) está diretamente ligada à saúde física e espiritual do povo Guarani. A diversidade musical do RS se manifesta também nestas comunidades, contribuindo com uma camada fundamental de conhecimento sobre os fazeres musicais ancestrais.
2. Jeroky: O Canto-Dança que Move o Mundo
Para os Mbya, o conceito de música é indissociável da dança e da espiritualidade. O jeroky é o canto-dança ritual realizado nas cerimônias (opy) guiadas pelo xamã ou liderança espiritual conhecido como karaí. Os cantos não são composições humanas no sentido ocidental; eles são recebidos dos deuses (Nhanderu) através dos sonhos ou aprendidos com os antigos. Cada canto possui uma função específica: agradecer pela colheita, curar uma doença, celebrar uma passagem, ou simplesmente alegrar o coração e fortalecer a comunidade. A repetição dos versos e o ritmo hipnótico criam um estado de conexão com o mundo espiritual, o aguyje (ponto de perfeição, paraíso). O respeito por estas práticas é fundamental para qualquer trabalho de documentação musical, e ecoa nas discussões sobre o patrimônio musical gaúcho como um todo.
3. Os Instrumentos Tradicionais Guarani
A sonoridade Guarani é rica e distinta, baseada em instrumentos de sopro, percussão e chocalhos. Cada instrumento carrega um simbolismo profundo e uma função específica dentro da cosmologia do povo.
- Mbaraka (maraca ou chocalho): Instrumento sagrado por excelência. Feito de cabaça (porongo) preenchida com sementes ou pedras pequenas, com um cabo de madeira. É o guia do jeroky, manuseado pelo karaí para conduzir a cerimônia. Seu som representa a voz dos ancestrais. No contexto das tradições gaúchas, dialoga com os instrumentos das culturas originárias e tradicionais.
- Takuapu (bastão de ritmo): Instrumento feminino, um bastão de taquara grosso que as mulheres batem no chão durante o jeroky, marcando o compasso. Mais do que um instrumento, é um símbolo da força feminina e da conexão com a terra mãe, a Nhanderu Eté.
- Ra'ambá (flauta transversal de taquara): Utilizada em contextos específicos, como para imitar o canto dos pássaros ou em rituais de iniciação. A flauta tem um timbre doce e melancólico, que evoca a relação do Guarani com a mata.
4. Música, Cosmovisão e o Equilíbrio do Universo
A música Guarani é uma expressão direta de sua cosmovisão. Ela não é separada da natureza: o canto dos pássaros, o barulho do vento nas árvores e o correr dos rios são vistos como música divina. O silêncio também tem seu papel. A harmonia da aldeia depende do equilíbrio entre os sons. A música é uma ferramenta de cura (nhemonguetá) e de fortalecimento do nhandereko (nosso modo de ser). A valorização deste conhecimento ancestral é essencial para a construção de uma identidade cultural que respeite todas as matrizes formadoras do estado.
5. Desafios Contemporâneos e a Importância do Consentimento
A documentação musical indígena enfrenta desafios éticos e práticos. A gravação e divulgação de cantos sagrados sem o consentimento livre, prévio e informado das comunidades é uma violência cultural. Muitos cantos só podem ser ouvidos em contextos específicos, e sua exposição inadequada pode ferir profundamente a espiritualidade do grupo. O Projeto Gema, ao retratar os mestres de tradições do RS, teve o cuidado de abordar estas comunidades com respeito, destacando seus protagonistas e valorizando seus saberes sem apropriação indevida. A preservação da música Guarani depende da proteção de seus territórios e do direito de manterem seus modos de vida tradicionais.
6. Conexões com a Música Regional Gaúcha
Embora distinta, a herança musical Guarani influencia a sonoridade do sul do Brasil. Ritmos como o bugio e a própria milonga carregam, em sua cadência e melancolia, ecos dos cantos indígenas. A valorização da cultura popular gaúcha passa, inevitavelmente, pelo reconhecimento desta contribuição fundamental. O movimento nativista e Tertúlia Musical Nativista, personificado por figuras como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, já apontava para estas raízes. A diversidade do estado se completa com as tradições afro-gaúchas, que trazem outra camada de complexidade ao panorama musical do Rio Grande do Sul, formando um mosaico cultural rico e plural.
Perguntas Frequentes
Tekoa (ou tekoá) é a aldeia Guarani. Mais do que um espaço físico, é o lugar onde o modo de ser Guarani (nhandereko) é praticado e preservado, envolvendo a casa, a roça, a mata e o centro cerimonial (opy).
O mbaraka (chocalho) é um instrumento sagrado, considerado o guia espiritual do canto-dança (jeroky). Ele é manuseado pela liderança espiritual (karaí) e seu som conecta a comunidade ao mundo divino e aos ancestrais.
A transmissão é oral e ocorre no cotidiano da aldeia e, principalmente, nos rituais. Os jovens aprendem ouvindo e participando. Muitos cantos são recebidos em sonhos, considerados um canal direto de comunicação com os deuses (Nhanderu).
Além de projetos como o Projeto Gema, que documentou a Tekoa Guaviraty Porã, existem iniciativas acadêmicas e de organizações indigenistas. Visitar feiras de artesanato e eventos culturais que respeitam o protagonismo indígena são boas formas de contato.
Os cantos Guarani não são meras canções; eles são rituais sagrados. Graválos ou divulgálos sem autorização fere a espiritualidade e a autodeterminação das comunidades. O consentimento livre, prévio e informado é um direito garantido e uma questão de respeito ético.