Instrumentos Musicais Tradicionais do Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul possui uma herança musical riquíssima, formada ao longo de séculos pela convivência e troca entre os povos indígenas, os africanos trazidos como escravizados e os imigrantes europeus — principalmente portugueses, alemães, italianos e espanhóis. Cada grupo contribuiu com instrumentos, ritmos e formas de fazer música que hoje são marcas da identidade gaúcha. Neste guia, percorremos os principais instrumentos tradicionais do estado, organizados por sua matriz cultural, explicando sua origem, seu uso e em quais tradições eles aparecem. Aprofunde seu conhecimento sobre música e ritmos regionais do RS.
Instrumentos de matriz europeia
Gaita-ponto e Gaita de Botão
A gaita-ponto, chamada popularmente de gaita de botão, é o instrumento-símbolo do Rio Grande do Sul. Trazida por imigrantes alemães e italianos no século XIX, ela se adaptou perfeitamente às danças e canções da campanha gaúcha. Seu som, produzido pelo fole e pelos botões que abrem e fecham a passagem do ar, é a base de gêneros como o vanerão, a milonga e o chamamé. Em festas tradicionais e encontros nativistas, a gaita de botão é presença certa, muitas vezes acompanhada por violão e pandeiro. No contexto do movimento nativista, ela ganhou novos arranjos e visibilidade.
Viola e Violão
A viola chegou ao Brasil com os portugueses e, no Rio Grande do Sul, tornou-se o instrumento de muitos trovadores e cantores. A viola de dez cordas, afinada em pares, produz um som vibrante que preenche as serestas e as rodas de churrasco. Já o violão, de seis cordas, é onipresente na música regional, tanto no acompanhamento de cantos quanto em peças instrumentais. Violonistas gaúchos como Yamandu Costa elevaram o instrumento a novos patamares.
Bandoneón
O bandoneón, parente da gaita, foi levado para o Cone Sul pelos imigrantes europeus. Embora seja mais associado ao tango argentino, sua presença é forte na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, especialmente em cidades como Santana do Livramento e Uruguaiana. O som choroso do bandoneón é parte da sonoridade da milonga e de peças instrumentais do sul do estado.
Instrumentos de matriz africana
Ilú
O ilú é um tambor cônico de madeira, coberto com couro, de origem iorubá. No Rio Grande do Sul, ele é um dos instrumentos centrais do batuque afro-gaúcho, religião de matriz africana que preserva os toques e cânticos trazidos pelos escravizados. O ilú é tocado com as mãos, e sua batida grave conduz as cerimônias, marcando o início e o ritmo das cantigas.
Aganju
O aganju é um tambor de tamanho maior e som mais grave que o ilú. Também de matriz iorubá, ele é responsável pela pulsação firme do toque, ancorando a percussão nos rituais. Cada som do aganju tem um significado específico, e sua execução exige conhecimento transmitido oralmente entre os pais e mães de santo.
Agê e Xequexê
Agê e xequexê são chocalhos feitos de cabaça seca, envolvida por uma rede de contas ou sementes. Ao serem sacudidos, produzem um som percussivo que acompanha os cânticos e danças. O agê é típico dos candomblés e também usado no batuque gaúcho, enquanto o xequexê tem presença marcante no samba de roda e nas festas populares.
Agogô
O agogô é formado por dois ou mais sinos de metal ligados por uma haste. De origem iorubá, seu som agudo e metálico marca o compasso da música. No Rio Grande do Sul, ele é utilizado tanto no batuque religioso quanto em grupos de samba e afoxé. O Projeto Alùjá registrou partituras e toques de agogô, ilú e agê, documentando essa herança para as futuras gerações.
Instrumentos de matriz indígena
Mbaraka e Maraca
O mbaraka (ou maraca) é um chocalho de cabaça, preenchido com sementes ou pedras, usado pelos Guarani em rituais e celebrações. Para os Mbya, o mbaraka é um instrumento sagrado que acompanha os cantos do jeroky, a dança cerimonial. Na música popular gaúcha, a maraca foi incorporada como instrumento de percussão em diversos gêneros.
Takuapu
O takuapu é um bastão de taquara ou madeira que as mulheres Guarani percutem no chão para marcar o ritmo durante os rituais. Cada batida ecoa como um chamado à terra, conectando a comunidade às suas raízes. É um instrumento simples, mas de profunda força simbólica.
Percussão popular gaúcha
Surdo, Pandeiro e Reco-reco
O surdo, tambor de grande diâmetro, veio da África e é o coração da bateria, marcando o tempo forte. O pandeiro, com suas platinelas, é um dos instrumentos mais versáteis da música brasileira, e no Rio Grande do Sul não é diferente: está no samba, no choro e nas rodas de churrasco. O reco-reco, raspador de madeira ou metal, fornece o ritmo sincopado. Juntos, esses instrumentos formam a base percussiva de conjuntos regionais e animam festas em todo o estado. Explore mais sobre música e ritmos regionais.
Perguntas frequentes
Qual é o instrumento mais típico do Rio Grande do Sul?
A gaita-ponto (gaita de botão) é amplamente considerada o instrumento-símbolo do estado, presente em vanerões, milongas e encontros nativistas.
Que instrumentos de origem africana são usados no batuque gaúcho?
Os principais são ilú, aganju, agogô e agê, todos de tradição iorubá, utilizados nos rituais e nas rodas de batuque.
Onde posso ouvir os toques tradicionais desses instrumentos?
O Projeto Gema, por meio do Alùjá, disponibiliza registros em partitura e áudio dos toques de ilú, agogô e outros instrumentos.
A maraca é usada por indígenas gaúchos?
Sim, o mbaraka (maraca) é um chocalho sagrado dos Guarani, utilizado no jeroky e em rituais de cura.
Este guia é um ponto de partida para explorar a riqueza dos instrumentos gaúchos. Aprofunde seu conhecimento visitando as seções de música e ritmos regionais e descubra como cada som conta a história do Rio Grande do Sul.